A lutar onde é difícil

23 03 2010

EU VOTO B E TU???





Dia mundial da poesia

21 03 2010

Lisbon revisited (1926)

Nada me prende a nada.
Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja –
Definidamente pelo indefinido…
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.

Fecharam-me todas as portas abstractas e necessárias.
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.
Não há na travessa achada o número da porta que me deram.

Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só desejada me farta – até essa vida…

Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansaço;
E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.
Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;
Não sei que ilhas do sul impossível aguardam-me naufrago;
ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.

Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma…
E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos últimos da alma, onde memoro sem causa
(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas),
Nas estradas e atalhos das florestas longínquas
Onde supus o meu ser,
Fogem desmantelados, últimos restos
Da ilusão final,
Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus.

Outra vez te revejo,
Cidade da minha infãncia pavorosamente perdida…
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui…

Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar, e a voltar.
E aqui de novo tornei a voltar?
Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram,
Uma série de contas-entes ligados por um fio-memória,
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?

Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.

Outra vez te revejo – Lisboa e Tejo e tudo -,
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver…

Outra vez te revejo,
Sombra que passa através das sombras, e brilha
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco se perde
Na água que deixa de se ouvir…

Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim não me revejo!
Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim –
Um bocado de ti e de mim!…

Álvaro de Campos





E viva a liberdade de expressão!

14 03 2010

Medida aprovada no Congresso do PSD:

Nos actos eleitorais em que o PSD esteja envolvido, não poderá haver criticas ou tomadas de posição diferentes às da liderança do Partido, 60 dias antes desse mesmo acto eleitoral, sob pena de sanção grave.

Será que esta é a noção de liberdade de expressão destes senhores? Assim já começo a compreender a necessidade da comissão de inquérito.





Desvario…

10 03 2010

Apenas quero ir…desaparecer…partir.

Partir para longe de tudo. Do fracasso, da incerteza, da inconstância dos constantes “ses” em que nos encontramos. Partia não só por um mês mas por um tempo infinito…

Sem telefones, computadores, nada, apenas a minha solidão e eu.

Sorrio para não chorar. Avanço para não cair. Luto para não ceder a esta vontade de deitar tudo para trás. De partir sem olhar para ver o que deixei…apenas ir.

Já não me reconheço. Olho-me ao espelho e do outro lado está alguém que já não conheço. Alguém que um dia fui eu.

Hoje já não o sou. Hoje sou apenas um retrato reflectido nas águas deste rio onde me deixo partir.

Hoje sou apenas uma miragem do que um dia fui.

Não me elogies. Não o mereço.

Talvez um dia realmente tudo o que fiz tenha tido significado, mas hoje nada interessa.

Talvez um dia consiga acordar e sentir vontade de avançar.

Talvez um dia saiba como me levantar.

Talvez um dia possa olhar e…

Talvez um dia…

Hoje apenas tenho uma certeza: Hoje não é o dia.





O Polvo

8 03 2010

 

É um molusco que aprecio muito de vez em quando. A minha forma preferida de degustá-lo é sem dúvida num arroz de polvo, feito à moda de quem o sabe fazer.

Depois temos o polvo à lagareiro, igualmente apreciado. Há, no entanto que ter cuidado com o tempo de cozedura do animal pois corremos o risco de ficar com o cozinhado estragado.

Para quem gosta do Verão e do Sol, há a possibilidade do polvo cozido (mais uma vez cuidado com a forma e tempo de cozedura), temperado com azeite, vinagre, alho e coentros.

Para os que gostam de experiências novas há sempre a vertente japonesa, que é um género de polvo muito mal cozido com limão (perdoem-me os admiradores de sushi mas desconheço a denominação de tal preparado). Aqui há que ter cuidado é com a quantidade de limão, pois ninguém gosta de ficar com gosto amargo na boca.

Para que qualquer um destes cozinhados, há que ter em conta o polvo que escolhemos. Pois, como em tudo, há polvos e polvos e se corremos o risco de optar por um daqueles improvisados e congelados, o cozinhado corre sérios riscos de ficar estragado.