O Sr. Costa

31 10 2011

 

O senhor Governador 

do Banco de Portugal!…

 

Neste país há investigadores universitários que estudam todos os dias até altas horas da noite, que trabalham continuamente sem limites de horários, sem fins-de-semana e sem feriados. Há professores universitários que dão o seu melhor, que prepararam cuidadosamente as suas aulas pensando no futuro dos seus alunos, que dão o melhor e sem limites pelas suas universidades. Há policias que ganham miseravelmente, que não recebem horas extraordinárias, que pagam as fardas do seu bolso e para sobreviverem têm de prestar os serviços remunerados.

Toda esta gente e muita mais que poderia ser referida foi eleita como a culpada da crise, denunciada como gorduras do Estado, tratada como inutilidade social, acusada de ganhar mais do que a média, desprezada por supostamente não ser necessária para a direita se manter no poder. Mas há uns senhores neste país que ganham muito mais do que a média dos funcionários públicos, que têm subsídios extras para tudo e mais alguma coisa, que cumprem com incompetência as suas funções, que recebem pensões chorudas, que vivem do dinheiro dos contribuintes como todo o Estado, mas que não foram alvo de nenhuma das medidas de austeridade que até hoje foram aplicadas aos funcionários públicos. São os meninos e meninas do BdP.

Ainda as pessoas mal estavam refeitas do anúncio da pilhagem aos seus rendimentos e há um tal Costa, governador do Banco de Portugal, vinha defender que as medidas deste OE deveriam prolongar-se par a além de 2014. Isto é, o senhor defende que os cortes se tornem definitivos. No mesmo dia a comunicação social informava que as medidas de austeridade aplicadas aos funcionários públicos não seriam aplicadas aos funcionários do banco de Portugal, o argumento para tal situação era o da independência do banco.

Mas se o Governo não pode nem deve interferir na gestão do BdP e o senhor Costa se comporta como um cruzamento entre a ave agoirenta e o Medina Carreira o mínimo que se espera é que ele dê o exemplo pois nada o impede de aplicar aos seus (incluindo os pensionistas do BdP) a austeridade que exige aos outros. No caso do BdP o senhor Costa não só estaria a adaptar as mordomias dos funcionários públicos e pensionistas do BdP à realidade do país como estaria a dar um duplo exemplo, um exemplo porque aplica aos seus a austeridade que exige aos outros e um exemplo porque chama os seus a responder pela incompetência demonstrada enquanto entidade reguladora de bancos como o BPN ou o BPP.

Porque razão um professor catedrático de finanças ganha menos do que um quadro do BdP, não recebe subsídio para livros como este e na hora da austeridade perde parte do vencimento e os subsídios enquanto o funcionário público do BdP não corta nada e muito provavelmente ainda recebe um aumento?

E já que falamos no BdP que tanto se bate pela transparência das contas públicas e do Estado enquanto o seu governador anda por aí armado em santinha das finanças, porque razão os vencimentos e mordomias do BdP não aparecem no seu site de forma a que sejam conhecidas pelos contribuintes que as pagam? Todas as colocações, subidas de categoria e remunerações dos funcionários públicos são divulgadas no Diário da República mas o que se passa no BDP é segredo, muito provavelmente para que o povo não saiba e assim manterem o esquema.

Ainda a propósito de transparência seria interessante saber porque razão os fundos de pensões da banca vão ser transferidos para o Estado e o do Banco de Portugal fica de fora. O argumento da independência não pega, o que nos faz recear que o fundo de pensões seja abastecido de formas pouco aceitáveis para os portugueses. Seria interessante, por exemplo, saber a que preço e em que condições uma boa parte do imobiliário que o banco detinha por todo o país foi transferido para o fundo de pensões dos seus dirigentes e funcionários.

É por estas e por outras o senhor Costa não tem autoridade moral para propor o mais pequeno sacrifício seja a quem for e deveria abster-se de aparecer em público.

 Este senhor só merece a resposta que lhe daria o saudoso Almirante Pinheiro de Azevedo:

“que vá bardamerda!…”

 

Vi este texto hoje e não pude deixar de comentar:

Infelizmente o que o Sr. Costa anda a sugerir, está a ser sugerido pelo Governo. O Sr. Relvas já anda a dizer que em muitos países da Europa os trabalhadores não recebem subsídios de férias nem de Natal. Já se houve falar no prolongamento do corte dos salários na função pública (o que é uma clara inconstitucionalidade). Já se fala que a tal meia-hora que os trabalhadores vão ter que dar à borla devia ser uma hora…A cultura deixou de ser Ministério e passou a ser Secretaria de Estado. O acesso a tudo o que é cultura está cada vez mais caro.Para cúmulo veio um Sr. Secretário de Estado afirmar que o melhor era os jovens emigrarem. Por aqui se vêem as intenções deste Governo: tirem a cultura ao povo e afastem os jovens do País. Assim o povo fica “estúpido” e deixa-nos fazer o que queremos entalando-os cada vez mais e mais com a desculpa dos erros do passado, e os jovens ficam lá bem longe sem poderem reivindicar o que é seu por direito. Todos sabemos que grandes movimentos que trouxeram grandes mudanças começaram no movimento estudantil. É disto que estes senhores têm medo?

Só mais duas perguntas: não foi o excesso de sacrifícios pedidos aos portugueses que levaram ao chumbo do tão mal-afamado PEC IV e à consequente queda do Governo? Para que foi aquele discurso do Sr. Cavaco Silva dedicando a vitória aos jovens se agora o seu protegido os quer mandar embora? Isto realmente a sede de poder tem muito que se lhe diga.

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