Sr. Presidente…

21 01 2012

ouvi atentamente o seu desabafo relativamente à sua parca pensão de 10.000€.

Já que tomou a iniciativa, permita-me que partilhe a minha experiência consigo.

Sou licenciada há quase um ano, estou inscrita numa Ordem que desrespeita quem quer ingressar na profissão e que não tem qualquer regulação por parte do Governo. Esta mesma Ordem, exige aos estagiários que paguem mais 1300% do que estava inicialmente previsto e que se calem, esperando pelos próximos devaneios do seu Bastonário.

Neste momento encontro-me a estagiar e, tal como muitos dos meus colegas, não aufiro qualquer remuneração mensal, sendo que estou a estagiar fora da minha terra natal.

Esta situação leva a que sejam os meus pais a sustentar-me, A pagar a renda da minha casa, a minha alimentação e as minhas despesas de saúde e transporte.

Tal como o senhor, o meu pai também recebe uma pensão que ronda um décimo da sua. A minha mãe ainda trabalha mas nunca auferiu um salário como o que o Sr. auferiu nos seus cargos no Banco de Portugal e na Fundação Calouste Gulbenkian.

Apesar disso, eles conseguem gerir tudo sem quaisquer fugas aos impostos, pensando sempre no melhor para os seus.

Dados os cortes que o Governo que tanto apoia faz dia após dia, esta gestão teve que sofrer alterações, levando a alguns cortes.

Não sei se o Sr. porventura passou por esta situação mas, no meu caso, com quase 25 anos, custa-me ver os meus pais ainda a sustentar-me, numa altura em que eles deveriam estar a gastar as suas poupanças com eles próprios.

 

Semana após semana sinto vergonha (sim Sr, Presidente, vergonha, algo que duvido que o Sr. tenha) de ter que lhes pedir dinheiro para me sustentar.

No ano passado surgiu uma pós-graduação que me ajudaria em muito na vida profissional que estou agora a iniciar. Apesar da sua importância abdiquei dela por entender que os meus pais não deverão suportar mais este custo.

Tenho procurado algumas alternativas para ganhar algum dinheiro que me permita pagar algumas das minhas despesas, mas a resposta ou não vem ou baseia-se em lugares comuns como a “qualificação a mais”.

Explique-me Sr. Presidente: como é que um argumento como estes pode servir para preterir alguém?

Hoje surgiu a notícia de mais um aumento nos transportes e do corte nos apoios aos jovens. Uma vez mais vou ter que pedir mais um esforço aos meus pais. Mais um esforço que eles vão ter que suportar nas suas despesas mensais. Uma vez mais a vergonha corrói-me.

Apesar de tudo isto, todos os dias me levanto para trabalhar, dou o meu melhor e tento aprender cada dia um pouco mais. Por respeito a quem me ensina e a quem me dá a possibilidade de continuar a investir no meu futuro profissional.

Apesar de tudo isto, sempre que posso, esforço-me por ajudar quem mais precisa.

Isto porque, mesmo nesta situação, ainda me sinto uma privilegiada pelas possibilidades que os meus pais me dão e entendo que devo ajudar quem está numa situação pior do que a minha.

Isto porque, trabalhei vários anos na área da Acção Social e me deparei com situações piores que a minha e que me ensinaram a respeitar as dificuldades dos outros.

Agora pergunto-lhe eu Sr Presidente: será que o Sr. não deveria ter um pouco mais de respeito pelas pessoas que confiaram em si quando o elegeram?

As suas declarações de ontem, para além de demonstrarem um total desconhecimento pelas dificuldades que a população do seu País atravessa, demonstram uma total falta de respeito pelas pessoas do seu País que enfrentam dificuldades suscitadas pela austeridade cerrada que o Governo insiste em impingir com o seu silêncio sempre presente.

Com toda a sinceridade: uma pessoa na sua posição não tem o direito de gozar assim com pessoas que chegam a ganhar 300€ de pensão.

Uma pessoa que na sua posição faz as declarações que faz, não merece o cargo para que foi eleita.

Por isso faça-nos um favor: DEMITA-SE, ou pelo menos continue a remeter-se ao silêncio, pois assim causa menos estragos!

 

 





Devaneio

8 01 2012

 

Sento-me na varanda, acendo um cigarro, deeixo-me absorver pela noite e deixo-me levar, divagando por pensamentos, memórias, nostalgismos e saudades de um futuro que cada vez mais anseio se torne presente.

Cada vez mais tenho saudades de um futuro com algo mais, algo que me preencha, que me faça ter vontade de continuar, algo mais.

Tenho tantas saudades de sair à rua e respirar a plenos pulmões o ar de Lisboa, de sentir a confiança de outrora, de certa forma, de voltar a ser quem era.

Bebo mais um trago desta solidão que aos poucos me vai consumindo, que me corrói, que me atira cada vez para mais fundo.

Toda a minha força, toda a minha coragem, toda a minha vontade de ser, o tanto que quis serm tudo isso se transformou no nada em que me sinto.

Cada vez mais tenho vontade de partir, de recomeçar no zero. Longe de tudo isto que começa a ser maior do que eu e que temo já não ter forças para combater.

Acendo mais um cigarro. Não sei porquê mas o fumo sempre me acalmou.

Respiro fundo e a noite continua a envolver-me. Ao longe o cheiro de uma lareira acesa transporta-me para aquelas noites de Inverno bem frias em que o lume e uma chávena de café eram suficientes.

Hoje parece que falta tanto para ser suficiente!

Onde está esse tempo?

Onde está essa vontade?

Onde está essa independência?

Onde está essa liberdade?

 

Onde estou eu?

 

Saio para a rua, chove torrencialmente!! Deixo-me estar e levar pela enorme de dançar e gritar.

Danço, rodopio, GRITO!!!

 

Afinal parece que o ar de Lisboa sempre esteve lá.





Fuga?

3 01 2012

Anda aí tudo muito chocado e indignado pela mudança, por parte do Grupo Jerónimo Martins, da sua sede fiscal para a Holanda.

Sinceramente não sei qual é o espanto, arriscando mesmo a dizer que esta será a primeira de muitas.

Com toda a sobrecarga fiscal que está a ser colocada sobre as empresas (já para não falar da população, pois isso daria um novo post) é natural que perante novas oportunidades de ganhar o mesmo ou ainda mais e pagando menos impostos e menos juros, qualquer um de nós faria o mesmo. Sim, deixemo-nos de falsos moralismos, qualquer um de nós o faria.

Depois vêm pessoas ligadas ao PSD criticar e dizer que jamais comprarão no Grupo. Então não é o nosso Primeiro-Ministro que anda a aconselhar as pessoas a emigrar?

Perante afirmações destas, quem o pode fazer é claramente o que fará.

Se o próprio PM aconselha a população do seu País a emigrar, que confiança poderá transmitir às empresas sitas em Portugal que as leve a permanecer e a aguentar toda a carga fiscal e os juros altíssimos que sobre elas recaem?

Cada vez mais é preciso uma justificação para tanto sacrifício. A estratégia de “isto está muito complicado e todos temos que fazer um esforço” já está a ficar gasta e as pessoas começam a aperceber-se de quais os verdadeiros objectivos de tanta austeridade e de tanta privatização.

Caso não se comece a incentivar verdadeiramente o investimento nas empresas nacionais este será o primeiro de muitos casos de fuga!

E depois?

Mandamos fechar o País?